Publicado originalmente em 1971, “Nêmesis” ocupa um lugar singular na vasta obra de Agatha Christie, funcionando como uma espécie de epílogo moral e emocional para a trajetória de Miss Jane Marple, uma das mais célebres detetives da literatura policial. Diferente dos romances clássicos da autora, centrados na lógica do crime e na revelação final do culpado, Nêmesis propõe uma investigação menos imediata e mais reflexiva, em que o passado, a culpa e a justiça tardia assumem protagonismo.
A narrativa tem início após a morte do excêntrico e milionário Jason Rafiel, conhecido de Miss Marple. Em seu testamento, Rafiel impõe à detetive amadora uma missão enigmática: ela deverá atuar como “Nêmesis”, a deusa da vingança e do ajuste moral, para corrigir uma injustiça ocorrida no passado — ainda que não saiba, de início, qual crime deve desvendar. Esse ponto de partida confere ao romance um tom quase filosófico, no qual a busca pela verdade se confunde com um dever ético.
Ao longo do livro, Miss Marple participa de uma excursão pelo interior da Inglaterra, sendo conduzida a diferentes ambientes e personagens por meio de uma viagem cuidadosamente planejada por Rafiel antes de morrer. Cada cenário funciona como uma peça de um quebra-cabeça que remete a eventos distantes no tempo, especialmente ligados a instituições educacionais e às aparências respeitáveis da sociedade britânica. Christie demonstra, mais uma vez, sua habilidade em revelar o lado obscuro oculto sob a superfície da normalidade cotidiana.
O ritmo de “Nêmesis” é deliberadamente mais lento do que em outros romances da autora. A investigação não se desenvolve a partir de pistas evidentes ou interrogatórios diretos, mas de observações sutis, memórias fragmentadas e pequenas contradições humanas. Miss Marple, já idosa, destaca-se menos como uma colecionadora de fatos e mais como uma profunda conhecedora da natureza humana, capaz de reconhecer padrões de comportamento que se repetem independentemente do tempo ou do contexto social. Aliás, foi exatamente por essa capacidade de reconhecimento de padrões que o velho Rafiel confiou essa missão a Miss Marple.
Tematicamente, o romance aprofunda questões caras à fase final da obra de Agatha Christie: a passagem do tempo, o peso das escolhas passadas e a possibilidade — ou não — de reparação. O crime, em “Nêmesis”, não é apenas um ato isolado, mas uma ferida que permanece aberta por décadas, afetando silenciosamente a vida de várias pessoas. A justiça que Miss Marple busca não é apenas legal, mas moral, aproximando o livro de uma reflexão sobre responsabilidade e expiação.
O desfecho, fiel ao estilo da autora, é ao mesmo tempo surpreendente e coerente, mas o que permanece após a leitura não é apenas a engenhosidade da solução. “Nêmesis” se destaca como uma obra melancólica e madura, marcada pela consciência de fim de ciclo — tanto para Miss Marple quanto para a própria Agatha Christie, que parecia encerrar ali uma etapa fundamental de sua produção literária.
Assim, “Nêmesis” é menos um romance policial tradicional e mais um estudo sobre justiça tardia e memória. Uma leitura que recompensa o leitor atento e que confirma a capacidade de Agatha Christie de reinventar o gênero mesmo em seus últimos anos de escrita, oferecendo um encerramento digno e profundamente humano para uma de suas personagens mais emblemáticas.






























